• Maitê Vallejos

Louça, emoções e quarentena


A louça aumentou por aqui nos últimos dias. Aqui em casa nós brincamos que pelo menos disso a gente tem certeza na vida: a louça não vai acabar nunca. E aí fiquei pensando em como a dinâmica da louça pode ser uma bela metáfora pra refletir sobre as nossas emoções.


Tem dias que a pia lota, a gente vai amontoando tudo até não dar mais (ou até eu ter um surto de limpeza mesmo). Tem dias que o esquema é pá-pum: sujou, lavou.


Tem dias que me arrasto pra ir lavar a louça — um tédio. Tem dias que tô pilhada e coloco uma música alta enquanto lavo. Tem dias que escuto um podcast e demoooro pra lavar tudo, postergando até o episódio acabar.


Meu marido sempre lava a louça de manhã. Eu tenho lavado depois do meio-dia ou à noite. E assim a gente vai alternando, equilibrando pratos e tirando a sujeira desses objetos que de alguma forma, nos alimentam e nos mantêm vivos nesse mundo que tá cada dia mais estranho.


E por falar em estranheza, a quarentena têm sido também um desafio pra lidar com a louça suja interna. A ansiedade, o não-saber, a saudades. Tudo isso vai acumulando e a gente precisa escolher em como vai lidar com essa louça um dia de cada vez. Analisar a quantidade de louça parada, calcular onde você vai empilhar as panelas depois de ensaboar e então colocar embaixo d'água.


Deixar sair.


O que não dá é pra amontoar mais do que a capacidade que a sua pia suporta.

Meu jeito de lavar minha louça interna têm sido à base de muita yoga, foco no trabalho, livros, conversas com os amigos no whatsapp, tentativas de não me cobrar por ser produtiva todo o tempo e, claro, escrevendo.


Que nessa quarentena (e depois também) a gente consiga nivelar a quantidade de louça suja e limpa. Porque uma coisa é certa: a louça vai estar sempre ali, e que bom.

16 visualizações

© 2020 by SalineBoom Proudly created with Wix.com