• Maitê Vallejos

Caminho de Santiago - O depois

Quando voltei do Caminho de Santiago muita gente perguntou como foi o retorno. Eu dizia que ainda tava processando e sentia vontade de escrever sobre isso, mas não sabia por onde começar, porque achei que em algum momento esse texto ia vir redondinho na minha cabeça e aí eu estaria pronta pra relatar meus aprendizados “finais”. Mas claro que não foi assim.

Acontece que tem coisas que talvez a gente leve uma vida para processar. E agora entendi que o caminho é uma delas. Faz parte do meu processo, e sempre vai fazer. O texto não vai estar pronto, nem acabado. Experiências como essa não têm aprendizados finais. Elas transformam e ecoam em vários aspectos da vida de uma forma definitiva e contínua. Por isso, esse texto vai ser como tem de ser. Sem me apegar muito na forma (o que é um exercício difícil pra mim). Aqui estão algumas notas mentais, lições, insights ou percepções do que vivi no Caminho Francês, entre agosto e setembro de 2019, durante 30 dias e 800 Km, até chegar em Santiago de Compostela.



O caminho é para todos


Em um dos dias mais difíceis pra mim, que chorei de cansaço por causa do calor, pensei: “o caminho não é pra todo mundo. É difícil demais. Tem gente que não ia aguentar”. Depois de voltar, percebi a arrogância desse pensamento. Logo eu, que nunca tinha andado tanto, que tive vários problemas respiratórios na infância, consegui superar todas as subidas e descidas e quilômetros sem fim. Por que outras pessoas não conseguiriam? Então agora eu acredito, do fundo do coração, que o caminho é pra todo mundo que quiser. Só é preciso tomar a decisão de que você quer fazer.


A-B-E-R-T-U-R-A


Sou uma pessoa mais tímida e reservada, mas curiosíssima por conhecer outras histórias. Me perguntava como ia ser isso lá. E, pra mim, esse foi o aspecto mais bonito do Caminho de Santiago. As pessoas estão abertas. Existe uma vontade genuína de conhecer o outro, de olhar pro outro, de perguntar se tá tudo bem, de verdade. Tá todo mundo no mesmo barco. Descobrindo coisas novas, aprendendo a usar os bastões, aguentando os roncos de noite e furando bolhas nos pés. As pessoas estão vulneráveis e com TEMPO pra ouvir o outro. De todas as coisas, é disso que mais sinto falta depois do caminho. Sinto que a gente até consegue ter abertura em alguns círculos, mas no geral, a vida anda bem cada-um-no-seu-quadrado.



Aprendendo a não julgar


Antes de ir pro caminho, postei uma foto dos itens da minha mochila no grupo do Facebook. Agradeci a ajuda e as dicas da galera e disse que tava indo. Muitos comentários me desejavam “buen camino” e alguns outros diziam “tem muita coisa nessa mochila”, “você vai se arrepender de levar xyz”, “tem muito peso aí, menina”, “iiii, tô vendo coisas desnecessárias aí”. Levei 5 kgs nas costas. Deixei um repelente e uma lanterna por lá. De resto usei tudo. Vi gente que levou a bíblia, whey, lençol, roupas “normais” (sem ser decathlon vibes haha) e TÁ TUDO BEM. Cada um vai carregar o que quiser. E se quiser pode despachar também. E se quiser pode jogar fora. Por que julgamos tanto as escolhas e decisões dos outros?


Subidas ou descidas?


Quando estava em subidas muito íngremes, só queria um respiro. Só queria uma descida. Quando estava em descidas muito íngremes, só queria uma subidinha de leve. Aí chegou a fase das mesetas, um trecho que vai de Burgos a León, uma região mais plana. Uhuuul, retas \o/. Alguns quilômetros depois, só queria uma subida ou uma descida. Aprendi no caminho que andar mais de 20 Km numa reta infinita dói muito a planta do pé. Eu sou bem doida mesmo, pensava. Cada hora quero uma coisa. E não é assim a vida?


Oi, resiliência


E aí engato nessa palavrinha mágica. A gente pode até querer coisas diferentes o tempo todo, mas tem momentos que precisamos segurar o tranco e entender que tudo é momentâneo. Vai passar. A subida, a descida e a reta. Elas sempre vêm. E passam. Resiliência é a palavra do meu caminho.




Km


Nunca estive tão atenta aos Kms. Não fazia a MENOR ideia do que era 4 Km caminhando, quanto mais 10, 20, 30! Aprendi a valorizar (e às vezes odiar hehehe) cada quilômetro, cada passo. Um dia estava almoçando com um brasileiro, Renato, e um italiano, Fausto. Compartilhamos um pouco do que estávamos aprendendo até então. Fausto disse que o maior aprendizado pra ele era “reaprender a caminhar”. Gravei isso como uma verdade que passou a ser minha também.


Mente e Corpo


Fazer um caminho longo, seja ele qual for, traz um entendimento maior sobre a ligação entre o corpo e a mente. Quando ambos estão funcionando bem a experiência é sublime. É quase como meditar. Mas, obviamente, existem muitos dias de desequilíbrio, em que um ajuda o outro pra engrenagem não parar.



Coexistir


“O mundo é grande o suficiente para diferentes valores coexistirem”. É isso. Fiquei um tempo na frente desse cartaz num restaurante vegetariano de Santo Domingo de La Calzada. Essa frase fala sobre empatia, respeito e igualdade. Conheci gente de vários países e percebi aquele clichê: somos todos iguais. Diferentes, mas iguais.



Independentemente da crença de cada um, estamos coexistindo nesse tempo e espaço. E isso é um privilégio incrível.


Meus grandes amigos do caminho: Chris, Kate, Daniel e Betty



Não preciso de muito pra ser feliz


No começo de 2019 sofri um acidente de carro com o meu marido. Por uma fração de segundos achei que poderia morrer, mas por algum motivo saímos ilesos. E a verdade é que eu poderia morrer agora, por qualquer outra razão, porque não temos controle de nada (mas isso já é outro assunto). Não preciso dizer que passar por episódios como esse faz a gente valorizar mais o que tem e, principalmente, quem está conosco. Não preciso de muito pra ser feliz e aproveitar a vida que tenho AGORA. O caminho só reforçou esse sentimento. Me sentia profundamente grata por poder caminhar, por viver o desafio que me propus, por ter pessoas amadas torcendo por mim, por ter comida, banho e cama pra dormir. Por estar viva.



Sobre a luz divina


Não. Deus não apareceu pra mim e me disse o que eu deveria fazer da vida depois do caminho. Apesar de ser, historicamente, uma peregrinação religiosa, a maioria das pessoas que conheci por lá não foi por essa razão. A grande maioria foi por autoconhecimento e pelo desafio de se superar, e eu me incluo nessa. Claro que tiveram dias e lugares em que senti uma paz e uma emoção nunca vividas antes. São milhares de pessoas e histórias que caminharam e caminham ali. A energia (pra quem acredita) é inexplicável, mas isso não quer dizer que todos os meus problemas ou dúvidas existenciais se resolveram no caminho. O que o caminho me deu foram, sim, mais consciência e clareza para seguir minha busca interior. :)



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Observação importante: essas foram anotações, aprendizados e experiências do MEU caminho. Para você que já foi pode ter sido diferente. E para você que está planejando ir, também vai ser. Buen Camino!


No instagram @pipanocaminho fiz um breve relato de como foi cada etapa do Caminho Francês. Se tiver alguma curiosidade ou dúvida sobre essa experiência, pode mandar mensagem lá ou aqui mesmo.


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